quarta-feira, 31 de março de 2010

Solidão



O orkut mostra centenas de conhecidos, mas no final de semana você morreu de tédio na sua casa sem que ninguém te chamasse pra sair. A menina de 12 anos foi vítima de um pedófilo que conheceu na Internet, mas os pais não desconfiavam de nada. O outro mandou trocentos convites por email para a comemoração do seu aniversário numa balada, mas acabou sozinho na tal balada (e a lista de nomes que ele levou está lá na entrada da balada cheia de nomes, mas ninguém veio).



Estamos totalmente conectados ao mundo pela web, vemos notícias em tempo real, acontecimentos globais, oscilações na economia, o novo astro gay, roubamos filmes, músicas, livros e um monte de direitos autorais como tarefa cotidiana, falamos com várias pessoas em várias línguas e todo brasileiro se vira bem com o inglês, mas nunca estivemos tão sozinhos.


A solidão nos persegue porque aprendemos a ignorar o real e nos dedicar à perfeição das relações virtuais. Ou vai me dizer que você tem por hábito puxar assunto com estranhos no ônibus, ou numa fila, ou que você realmente conversa com seus vizinhos, com seus parentes... Mas com certeza você se preocupa com seus profiles espalhados pela rede, com o teor das fotos que você carrega pros seus álbuns virtuais e com as atualizações daquele Blog que ce tá acompanhando.


Contudo, não podemos nos culpar tanto, temos que convir que é muito mais legal ser uma coletânea das nossas melhores fotos do que ser nossa cara de manhã bem cedo, ou que é mais popular exibir os 500 amigos no orkut do que os mesmos 2 ou 3 que sempre estão por perto e, sem dúvida, as dezenas de flirts e visitas de desconhecidos ao seu perfil alimentam mais o ego do que as raras cantadas e flertes da vida real.


Portanto somos a vanguarda da safra de relacionamentos do futuro, twittamos, logamos e blogamos como se fossem mesmo verbos em português e estamos muito bem assim... Só que continuamos sozinhos.



Agora dá licença que eu tenho que mandar scraps pros meus amigos no orkut, pra avisar que tô atualizando meus posts no blog e pedir que eles comentem e me add nos seus profiles da web.

terça-feira, 2 de março de 2010

Após as duas recentes catástrofes sísmicas (Haiti e Chile) seguiram-se cenas similares e por razões similares: a falta de produtos de primeira necessidade levou a uma onda de saques e violência.


Pessoas com fome e sede passam a buscar instintivamente o suprimento de sua necessidades básicas da mesma forma que um animal selvagem faria: tomando pra si por meio da força aquilo que precisam.

Todos nós temos o mesmo instinto e faríamos exatamente os mesmos atos de violência se estivéssemos naquela situação, e isso, por fim, explica a existência do salário mínimo.

O que? Não entendeu? Bom, deixe-me explicar: a única condição fatidicamente incontestável para reduzir qualquer grupo humano à uma anarquia generalizada regida pela lei do mais forte é o Estado de Necessidade (aliás, situação que até mesmo nosso direito entende como permissiva para se tirar uma vida) e os governantes, há milênios, sabem muito bem disso.


A fome é o combustível das revoluções.

Assim sendo, se você quer manter uma massa populacional quietinha fazendo seu trabalho, faça qualquer coisa menos deixá-los famintos!

Essa é a grande sacada do Salário Mínimo: nossa constituição diz que ele deveria ser apto a atender as necessidades básicas de um indivíduo abarcadas entre elas a alimentação, saúde, moradia e lazer...

(ok, pausa pra se mijar de rir)


Bom, sabemos que nosso SM não atende essas necessidades nem fodendo, então pra que é que esse negócio serve? Simples: pra você não morrer de fome.

Corrupção, sacanagem generalizada, falta de saúde, segurança, emprego, educação, transporte, impostos ridiculamente extorsivos... Tudo isso vai sendo levado com a barriga enquanto o povo não estiver faminto o bastante pra ficar irracional. A certeza do salário no fim do mês te mantém:

1º. Quietinho fazendo sua parte, acordando cedo, produzindo e pagando as contas na medida do possível;

2º. Esperançoso o bastante pra se concentrar muito no que faz e não ter tempo pra esquentar a cabeça com outras coisas (como política por exemplo);

3º. Resumidamente: conformado e inerte (cada um fica procurando seu lugar à sombra e dane-se o resto).

Um caso célebre atribuído a Maria Antonieta (na verdade não foi ela quem proferiu a fatídica frase, mas interessa aqui o sentido) dizia que, às portas da revolução francesa um grupo de esfomeados plebeus franceses foi piquetear às portas do palácio reclamando da falta de pão, ao que a resposta foi:

"Se o povo não tem pão que comam brioches" (como se fosse um problema de "opção")

Bom, com o devido lapso temporal o próximo grande marco desse caso foi a maior revolução popular da história acompanhada do, exaustivamente utilizado, invento da guilhotina... Pois é... teria sido melhor liberar uns pãozinhos né...

Portanto não se engane, somos animais, passamos anos sem estudo, segurança ou moralidade, mas não passamos um dia sem água e comida. Somos macacos vestindo roupas e fingindo que controlamos a natureza, mas a verdade e que não controlamos porra nenhuma, somos fiéis seguidores de nossas necessidades e por elas os fins justificam os meios. É frio, cruel e direto... enfim, é humano.